As últimas páginas de um texto ou sobre a impossibilidade de concluir

Quando a aventura de ler um livro se aproxima do final, é comum que se criem expectativas em torno de suas últimas páginas, como se todo o percurso recorrido pudesse repentinamente adquirir um sentido maior, sem o qual toda a trama do livro perderia seu sentido. Tal sobrevalorização carrega consigo alguns riscos, podendo frustrar o leitor ou leitora à espera de conclusão grandiosa, sintética e explicativa, que seja capaz, justamente, de redimir todo o esforço empregado na leitura do texto.

Em alguns casos, tal frustação se expressa em críticas ferozes sobre a obra, taxada como perda de tempo ou pegadinha do autor contra a curiosidade do(a) leitor(a). A sobrevalorização de um gesto final e redentor, não se resume à percepção comum acerca de livros ou filmes, podendo ser percebida na própria maneira como se encara a  vida. Frequentemente, as últimas palavras de um homem (nesse caso, geralmente um homem mesmo) são consideradas como as mais importantes, como se os últimos dizeres de protesto antes de subir ao cadafalso conferissem ao revolucionário jacobino (e àqueles que o cercam) todo o sentido da vida e da história. Opera-se como a análise de tais palavras sumárias, ditas ao fim, nos escusassem de apreender os desdobramentos e descontinuidades que perpassam “o meio” da vida. Desse modo, o fim daria o sentido a todo o caminho, como algo previamente gestado e sem o qual nada poderia ser compreendido.

Mobilizando bastante bem a importância simbólica das palavras finais, Getúlio Vargas mencionou “saio da vida para entrar na história” em sua carta testamento, como se essa frase (e as demais que compõem seu texto) dissessem mais sobre ele do seus quinze anos de governo ininterruptos e mais outros 3 como presidente eleito. Vargas já havia entrado para a história antes de seu suicídio e da carta-testamento, antes de suas “últimas palavras”, que figuram inegavelmente como ato estético e que não podem ser negligenciadas.

O revolucionário francês já fez o que tinha que fazer, o anarquista já estourou sua bomba no palácio do governo ou no banco mais próximo. É, justamente, no “meio”,  no caminho, por meio de muitas associações e recusas que se costuram os variados, contingentes e conflitantes sentidos que uma vida, um livro ou um filme são capazes de carregar. Entretanto, aquele que dá às ultimas palavras (linhas e cenas) um significado exacerbado não percebeu, ou negligenciou, tais associações, que só podem se fazer pelo meio. Quando digo meio, refiro-me à própria vida como algo que passa, sem necessidade de pedir licença ou explicar-se àquele que a acompanha.

Desse modo, as últimas páginas de um livro, a última cena de um filme as últimas palavras de um homem ou uma mulher (caso possam ser proferidas) exercem o papel de dar um fecho a algo que necessita encerrar-se, cujo recado já foi dado, as associações já foram tramadas, simplesmente, é hora de partir. Faz-se necessário terminar e seguir outros caminhos. Se for possível, ou mesmo desejável, inserir um gran finale, que ele esteja á altura da grandiosidade de seu meio. E, justamente, considerando a impossibilidade de concluir esse texto sem resumir o que já foi dito “pelo meio”, apenas pressiono o ponto final e me vou.

La Passante

Noites de Cabíria ou um passeio pela vida

Qual o emblema da liberdade alcançada? Não mais envergonhar-se de si mesmo” (F. Nietzsche, A Gaia Ciência § 275, Cia. Das Letras, 2001).

Existirmos a que será que se destina ?” (Caetano Veloso, Giulietta Masina).

Noites de Cabíria é um filme de Federico Fellini (1957) cuja protagonista é uma divertida prostituta que exerce seu ofício após o pôr do Sol pelas ruas de Roma. Ao amanhecer, Cabíria (ou Maria?) Ceccarelli apanha um ônibus até seu simples casebre. Sua vida se compõe em uma sucessão de atos trágicos que se multiplicam por um, por dois, por três…

Apesar da vida difícil, tudo parece se tornar mais leve quando põe-se a dançar um mambo qualquer, tocado pelas esquinas da capital italiana. Ela tem clientes muito ricos, outros muito pobres. A despeito de seu gênio irascível, navega com maestria por todos os ambientes: nunca se deixa amedrontar e, sobretudo, nunca se envergonha de si mesma. Em um clube noturno, ou em uma missa em homenagem à madonna, ali está, com seu rosto expressivo e brilhante.

Percebendo que pode acabar só e em pobreza definitiva, Cabíria começa a reavaliar seu modo de vida. Seu mundo está na iminência de sofrer uma reviravolta quando um “jovem contador” decide pedi-la em casamento. Mas, de repente: “Que estranha luz”… Tudo parece desmoronar no momento em que a tragédia volta a inundar sua vida (a qual aparenta perder a razão de ser). No entanto, nada está perdido, nada falta: é preciso brilhar mais do que o sol e seguir a música, afinal ainda estamos vivos (prontos para novas aventuras). Cabíria: aquela que nunca sente vergonha de si, alguém que alcançou a sua liberdade.  

  Ass: Perdido no Lácio

Des-pré-gramar

Em um espaço esquadrinhado; estriado (como diriam Deleuze & Guattari) e planejado; as forças da moral projetam um espaço plano, referido a um centro. Há aqui a produção de perspectiva, hierarquia e também de violência. Tudo o que é incômodo à moral é arrastado para a margem: loucos e bandidos; e doentes ;e prostitutas; e homossexuais; e… cria-se um ideal de separação e imobilismo (paradoxalmente produzido pelo movimento da moral). Nesse sentido, os discordantes constituem a própria identidade daquilo considerado “normal”: afinal , o que seria do “são” sem o “louco” ? A ideia de racionalidade se reporta diretamente ao que ela marginaliza.

Os mecanismos de ação da moral possuem eficácia, pois são dinâmicos e  imanentes aos modos de vida ocidentais. Qual o efeito de quebra das linhas duras e do encontro dessas linhas ? O que acontece quando a potência da loucura visa face a face, sem hierarquizações, um conjunto existente considerado”racional” ? São questões que não podem ser respondidas categoricamente, já que sua força pertence ao devir e provêm de sua abertura.

De um lado, tal abertura não quer dizer inversão de papéis ou troca de lugares: todos deveriam saber que não é possível ocupar o lugar de outrem (e tampouco convém a tentativa), pois a existência se dá enquanto relação diferencial. Por outro lado, podemos dizer que os toques aos quais nos referimos não são necessariamente físicos, mas certamente, são encontros materiais. Eles podem ser canalizados para um esforço de invenção de novas sensibilidades, que sequer são forçosamente  contemporâneas (a moral divide também o tempo): “a futuro poesia da poesia pode estar em Homero”.  [Leminski].

Não se trata da abdicação da “prudência”: mesmo a prudência não seria a mesma em relação  à prudência moral de outrora. O efeito desse deslocamento poderia ser a corrosão da normatividade e dos padrões: de heterossexualidade; de masculinidade; de sanidade; de….

Amigos, não advogamos o avesso da razão (seu avesso é previsto e necessário a ela) e tampouco nos furtamos a argumentar: o argumento é um instrumento estratégico. É necessário esforço e obstinação, nossa arquitetura não pertence à lógica cartesiana. Apostemos na criação de valores, a serem desenhados no clímax da batalha.

Ass: Exilado de si

Uma vela nunca poderá incendiar a escuridão

Nas obras românticas, o frio, a chuva e a ausência de sol são associados à solidão e à introspecção: um longo inverno é uma longa tristeza. Os intelectuais do hemisfério Norte, criadores dessa relação de sentido, têm mais experiência em escuridão do que nós, homens dos trópicos. A figura do sol é motivo de celebração em muitas culturas, mesmo nas europeias – há uma tendência heliotrópica em muitas sociedades.  Somos presenteados com a luz desse astro: “Filhos do sol, mãe dos viventes” [Oswald de Andrade].


Não se trata de determinismo geográfico: só se pode acreditar em determinismo geográfico, caso se estabeleça um corte ontológico entre Natureza e Cultura; operado com maestria por Kant. Trata-se de marcar diferenças. A floresta amazônica não é a floresta temperada boreal: o Iluminismo são as luzes em terras com pouco sol e longas noites de inverno. Talvez por isso, a razão europeia se assemelhe mais a uma vela do que a uma tocha.


As sociedades indígenas, dessas terras que viriam a se chamar Brasil, não vivem para produzir excedentes produtivos, nem para escrever leis em tábuas, ou para distinguir um nobre de um plebeu (ou um burguês de um pobre).


Os ameríndios vivem a pensar na conjunção associativa do universo: nas interações entre animais; plantas; montanhas e homens. Nada mais distante de um jogo de luz e sombras! Não há espaço para as neuroses da racionalidade, daqueles que buscam iluminar o desconhecido com velas, com seus frágeis olhos facilmente fustigados pelo sol ao sair de uma caverna. Os indígenas dos trópicos carregam tochas, não velas.

O fogo de uma tocha até pode ser iniciado pelo pavio de uma vela (seria isso a antropofagia?). Mas, uma vela nunca será uma tocha. Para incendiar é preciso a força de um alegre e luminoso sol: escutemos os incendiários, pois.  

Ass: Aquele que ainda está por vir

consciência de ruptura

Parte I – consciência de ruptura

Um dos mais brilhantes historiadores do mundo foi Fernand Braudel. Ele fez parte de uma segunda geração de historiadores franceses que, desde os anos 1920, com Lucien Febvre e Marc Bloch, tinham como objetivo encontrar critérios científicos para a história social e econômica. Colocando, porém, o positivismo do século XIX em questão. Estamos falando da “escola dos annales”, como são conhecidos até hoje.

Braudel, por sua vez, foi responsável por uma categoria de análise histórica das mais importantes: a longa duração. Chamo de categoria de análise porque a “longa duração” não é um conceito, mas uma delimitação do objeto de estudo. Por exemplo, a formação de um hábito alimentar baseado no pão de farinha de trigo na região do mar mediterrâneo. Tal processo de formação só pode ser entendido recortando-o numa temporalidade milenar, sem personagens “principais” e batalhas espetaculares. Daí a longa duração.

Caminhando com Braudel, este sempre desconfiou dos “acontecimentos” de ruptura, como as revoluções modernas – a francesa como símbolo paradigmático – e, portanto, desconfiava da história política, das genealogias nobres, das grandes guerras e impérios. Braudel propôs, então, analisar uma história anônima, lenta, demográfica, climática, geológica, material.

A longa duração, portanto, é o tempo das rotas comerciais; o tempo do desenvolvimento de técnicas agrícolas; de domesticação de espécies animais e vegetais. Estamos falando do tempo de formação de sistemas que relacionam assentamentos populacionais, zonas de escoamento de mercadorias por meio de aberturas de estradas, rios e mares. Estamos falando de formas comunitárias de vida camponesa ou não, que conquistaram um equilíbrio produtivo, demográfico e cultural por milênios… Enfim, temporalidades que só foram rompidas muito tardiamente na história humana, por fatores externos ou acidentes endógenos, ou ainda resistem e perduram: como as sociedades indígenas isoladas.

Portanto, a longa duração trata dessas atividades humanas seculares, milenares, que não são passíveis de serem avaliadas por meio de nomes próprios e grandes acontecimentos. Pelo contrário, estamos falando da estrutura do próprio cotidiano. Da vida, pode-se dizer, “ordinária”.

A historiografia, desde meados do século passado, transitou para o que se descreveu acima. Com notáveis desenvolvimentos, numa explosão de objetos de pesquisa, sofisticação da descrição e reconstituição do passado para entender onde o presente se estriba.

Dito isso, pergunto: da perspectiva da longa duração, como entender o acontecimento?

Bem, essa pergunta já não é mais novidade, faz tempo tenta -se conciliar a longa duração ao acontecimento. Porém retomo a pergunta, adiantando que me parece que essa seja uma falsa polêmica, como tantas existentes.

Pensando desse modo, um acontecimento pode ser medido. Ele tem um alcance, uma profundidade, isto é, tem dimensões e direções que podem ser medidas, a partir das fontes e dados dos quais dispomos. Assim, poder-se-ia chamar de acontecimento o instante em que as estruturas que demoraram séculos e milênios para se consolidarem, em diferentes escalas de duração, são atravessadas por algo que as fazem participar de um mesmo momento vivido. Isto seria a captação de uma interligação global do momento vivido.

Ora, a meta de uma pesquisa histórica que avalia um acontecimento, entendido do modo descrito acima, só pode ser realizada satisfatoriamente se for inter e transdisciplinar: junto com a geografia, biologia, estatística, economia, antropologia, sociologia etc… Isso também os autores da escola dos annales já falavam desde os anos 1920.

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Voltemos, agora, para o título desse texto, a “consciência de ruptura”. Nestes dias de medidas globais para conter o COVID-19, a imprensa, as redes sociais e intelectuais, se dispõem a vaticinar que vivemos um momento de ruptura. Portanto, um acontecimento de dimensões globais, com o potencial de transformar radicalmente a forma como vivemos. Projetam que após a pandemia, o mundo já não será mais o mesmo.

Ora, a isso que foi dito acima atribuo a noção de consciência de ruptura: um conjunto de enunciados que vaticinam uma transformação prestes a chegar.

Desse modo, adotando o critério de prudência que nos ensina a “longa duração”, eu sugiro suspeitar da noção de acontecimento tal como ela vem sendo expressa. Porém, acatá-la. Acatar o que a noção de ruptura indica.

Que o vírus global já causou um imenso estrago, disso não se duvida, e que esses estragos estão longe do seu apaziguamento, também disso não se duvida.

Quando se fala em estrago, estamos falando de mortes de pessoas e um brutal desarranjo econômico, que deixará suas marcas por bastante tempo. A Europa projeta quedas de PIB que variam de 0,5% a 10%. Nas Américas não será diferente. Assim como na África e Ásia. Sem falar nas áreas em que as populações sofrem sérias privações, tanto localmente como globalmente.

Contudo, qual será a profundidade da ruptura? Quando se diz “não viveremos mais como antes” o que se quer dizer?

Quando falamos de “formas de vida” estamos falando do modo de morar, se locomover, consumir, produzir, criar laços afetivos, etc. O acontecimento que ora vivemos tem o potencial de transformar essas estruturas de forma definitiva? Que ela já transformou esses hábitos durante a quarentena, não há dúvida. Mas o que pode sair daí?

Por ora, cabe dizer que governos e governantes já foram fortemente atingidos, isso é claro. Está no horizonte da curta profundidade de consequências. Porém, alguns intelectuais se dispõem a projetar quadros mais ousados em profundidade: como adoção de sistemas de controle social (biopoliticos) mais sofisticados e invasivos; quadros otimistas como a construção de formas de vida mais solidárias (porém o que isso pode querer dizer?); além de quadros desoladores, como fome, caos social, e instabilidade duradoura.

O que se pode dizer é que a dimensão do acontecimento que estamos vivendo é global e já é irreversível, pode ser mitigado, mas não dá mais para voltar atrás. O que ainda fica sem resposta é a profundidade das consequências desse acontecimento.

Nesse sentido, é que se pode situar a falsa contradição entre “salvar vidas e salvar empregos”, por exemplo. Essa aporia se constitui porque nos atemos a uma ilusão de “retorno” à normalidade cotidiana. Assim, cria-se a falsa ideia de que é possível escolher entre uma coisa e outra para voltarmos o mais rápido possível ao que éramos – ainda que isso agrave os custos humanos.

Porém, não há escolha a se fazer aí. E para seguir adiante é necessário aceitar que não há mais “normalidade”. E é aí que situamos o “acontecimento”.

Assumir a ausência de normalidade não é ser catastrofista. É o contrário. É assumir que deveremos pensar 1) como conter os estragos nas vidas humanas e 2) como situar a vida cotidiana nessa situação.  

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Como conclusão, é possível dizer que a consciência de ruptura não é uma novidade destes dias que vivemos, ela se manifestou em muitos momentos da história, em que de fato rupturas ocorreram. O que o fenômeno atual tem em comum, porém, é que a expressão da noção de que se vive uma ruptura é incapaz de acertar a respeito do que haverá depois e qual o caráter próprio da transformação ocorrida. De fato, não dá para saber.

O que dá para saber é que a conjuntura global mudou, já mudou. Já não existe uma “normalidade”. Todo o horizonte econômico, parte significativa das estruturas políticas e práticas de estado, etc., já estão questionadas. A pergunta que teremos de responder no futuro próximo é: afinal, o que fazer?

Parte II – Não se afetar não é uma opção

Iniciemos a parte II dessa discussão com um questionamento espinozista: a afecção provocada pela intrusão de elementos, como esse novo vírus, não pode ser ignorada. O velho dualismo platônico entre essência e aparência, e todas as implicações reativas que ele traz consigo já não nos servem para nada.

De fato, o problema da longa duração apontado por Braudel incide como uma questão relevante: há algo de novo sob o sol? Não é de hoje que sentimos eventos intrusivos em nossas vidas: barragens se rompem; o clima aquece; pandemias existem… Seriam essas produções materiais do capitalismo?

Dobrando a perspectiva braudeliana, nos perguntamos: qual a produção de uma perspectiva baseada no pensamento da ruptura por meio do evento? Como nos lembra Koselleck, o século XVIII inaugurou uma nova relação com o conceito de história enquanto possibilidade de quebra temporal entre passado, presente e futuro: o que ele chamou de moderno conceito de história. A Revolução Francesa produziu-se enquanto um processo que potencializou o pensamento da ruptura: “a França já não é a mesma; nada tem a ver com o Antigo Regime; fundamos uma nova era”. Esse procedimento, evidentemente, possui implicações: Luís XVI perdeu sua cabeça. De qualquer modo, no campo dos eventos políticos, a história nos demonstrou que nada é para sempre. Atrás de um Roberspierre há um Luís XVIII; no encalço de Napoleão vem um Napoleão III.

Desde esse ponto de vista, Braudel seria um antimoderno, na medida em que nos incita a pensar a história desde uma temporalidade não ruptural, ou seja, que desconfie da velocidade dos acontecimentos políticos imediatos. De qualquer maneira, esse vírus nos afeta, nos faz sentir de outro modo:  até Braudel estaria trancado em casa. A ansiedade envolve a situação pandêmica: o que será de nós amanhã? Essa questão não pode ser respondida, por mais projeções que se façam. A prudência colocada pelo pensamento braudeliano de não nos atermos ao momento presente, possui uma potência interessante, na medida em que chama a uma análise de relações de força mais atenta.  O vírus trouxe à superfície elementos que já estavam contidos no mar do cotidiano: relação entre capital e Estado; entre população e saúde; entre “meio ambiente” e vida. Nesse sentido, talvez possamos chamar esse intruso de catalisador: aumentando a velocidade das reações, as faz mais visíveis.

Pensando do ponto de vista dos afetos que nos atravessam, o intruso faz pensar: nada é óbvio. Talvez devêssemos compreender que “o eu é um outro” como dizia Rimbaud, ou seja, não há problemas intimamente pessoais. Nossa vida é coletiva, pois as relações de força que nos perpassam são coletivas e dizem respeito a universos muito mais vastos do que um sujeito de terno sentado em um escritório, esperando o final do expediente para chegar em casa e continuar a redigir seus relatórios. O sol que nasce nos diz: ainda há tempo, mas o tempo já não é aquele.

Parte III – os não-humanos

Os acontecimentos das últimas semanas, evidenciam a ação de um novo agente não-humano: o Coronavírus. Em um primeiro momento, lendas urbanas sobre sua origem foram difundidas nas redes sociais, grande parte delas regadas a racismo e preconceitos contra povos asiáticos, que inclusive se mobilizaram virtualmente difundindo a famosa frase: “eu não sou um vírus”. Ressalto o quanto essas lendas e especulações sobre a origem do vírus são inócuas, tanto para enfrentamento do atual do quadro social e sanitário, quanto para a produção de respostas. Entretanto, ressalto que a inutilidade deste tipo de enunciação não envolve somente o fato de que ela se embasa em “especulações” (e não recorre aos “fatos duros”), mas também por seu apelo a uma “causa original”.

Especular ou dar atenção à origem de um agente não-humano, que se espalha em escala exponencial, me faz lembrar aquela velha fábula do filme de ficção científica, na qual o cientista-homem-protagonista descobriria a “causa dos males” e, consequentemente, se tornaria capaz de reverter a situação. Seguindo esse mesmo eixo narrativo, o descobrimento da “causa” seria seguido da “solução nítida e racional” que reestabeleceria a normalidade, a concórdia e a vida tal qual era sempre havia sido. Os próprios agentes sanitários envolvidos no combate à doença têm plena consciência da inutilidade de se pensar a origem de um vírus com alta capacidade de expansão, de modo que as ações de prevenção e estímulo ao isolamento buscam “trabalhar pelo meio”, evitando o contágio e medindo forças com um agente em plena atividade, cujas “regras do jogo” ainda nos são obscuras.

É nesse sentido, que a intrusão do Coronavírus me parece um acontecimento, algo que prende nossa atenção ao “meio”, ao tempo presente, às ações “aqui e agora”. Retornando à fábula da ficção científica, contrariamente às nossas expectativas cinematográficas, sabemos que o “mundo após o Coronavírus” não será o mesmo mundo. Além de não existir aquele “fio vermelho que uma vez cortado desativa a bomba”, também não se conhece nenhuma solução direta, nítida e rápida, tampouco se sabe sobre o dia de amanhã. Tais incertezas se estendem às consequências que esse evento nos deixará, colocando com mais contundência alguns questionamentos (que não nos são completamente desconhecidos): nosso atual modo de vida é realmente sustentável? Para quem produzimos? Por onde andavam nossas ações e pensamentos mais queridos? Os parâmetros econômicos de perpétuo “desenvolvimento linear” são desejáveis? Ou mesmo inevitáveis?

Tais questões, que mostram sua atualidade, se inserem em um debate mais longo, que remonta aos anos 1980 e ganhou especial vigor após a crise de 2008. Destaco rapidamente vozes como Isabelle Stengers, Bruno Latour e Ailton Krenak, cada uma delas elaborando o problema ao seu modo, apontando a falência do atual modo de vida, que se direciona ao consumo intermitente, à noção de “necessidade de progresso”, bem como, ao não comprometimento do homem com a terra em que habita. A separação moderna entre natureza e cultura foi bastante conveniente na elaboração dos parâmetros seguidos pelo sujeito moderno, que ao se considerar algo separado – e inclusive superior – aos não-humanos do “mundo natural”, considerou-se “intocável” e irresponsável frente aos resultados de seus atos.

Segundo as críticas dos(as) autores(as) acima, o modo moderno de se relacionar com o mundo, embora nos seja apresentado como “universal” e “inescapável”, é bastante restrito e restritivo. Situação que se torna latente com a emergência do Coronavírus: um novo agente não humano em plena expansão. Condicionado a pensar com base em fins, e produzir valor sobre finalidades (pautadas em ações progressivas), o pensamento moderno mostra sua incapacidade de “pensar/agir pelo meio”, ou seja, posicionar-se estrategicamente frente a um mundo povoado por agentes que não “se adestram” à dominação humana. A ação do Coronavírus coloca a necessidade de se posicionar em um mundo cujos fins não norteiam a criação de projetos de ação fechados, faz-se preciso agir “pelo meio” para, assim, criar um fim. Agir “pelo meio” envolve abrir-se às misturas, estar disposto a reposicionar-se, negociar, pensar novos modos vida e, talvez, uma nova concepção sobre o que significa desenvolver-se.

A crítica elaborada acima, pode soar egoísta, inocente ou talvez até irresponsável. Entretanto, os pronunciamentos das últimas semanas nos indicam o quanto o pensamento/ação “voltado a fins” (lucro, ordem, economia, “bem maior”) é o mais irresponsável de todos, pois se exime de qualquer postura ética, evitando a seguinte pergunta: “quantos precisarão morrer para que os fins sejam alcançados?”. Pensar/agir pelo meio significa enfrentar a controvérsia enquanto tal, mover-se tão rápido quanto o Coronavírus, lhe fazer emboscadas, proteger os entes queridos, atuando e produzindo a chegada do futuro, que assim como o fim desta pandemia, resultará de ações e decisões tomadas “pelo meio”.

Por Comitê sem nome.

A questão da janela

Este texto tem como objetivo responder à seguinte questão: qual é a essência do conceito de janela? E para cumpri-lo, é preciso estabelecer, antes, um breve esclarecimento sobre o que seja a essência de alguma coisa. Assim, entendemos que a essência de um objeto não se confunde com ele próprio ou com a sua forma (o seu perfil, digamos assim). Desse modo, não encontraremos a essência observando empiricamente um grupo qualquer de coisas semelhantes e, por fim, descrevendo-lhes os pontos que possuem em comum.

Com efeito, a resposta sobre a essência da janela deve dizer o que rege a janela universalmente; o que rege toda janela ou tudo que se pode chamar de janela. Portanto, a verdade do que pesquisamos, a sua essência, não se encerra na análise de aspectos comuns de alguns objetos que podem ser chamados de janela – ainda que encontrar sua essência passe por questioná-la. Porém, a essência não está nela, antes desvela-se por meio dela.

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Diante da precariedade de instrumentos para que avancemos sempre de forma segura até uma resposta para a questão da essência janela, comecemos, pois, pelo que está mais próximo; comecemos pelo sentido comum e corrente da palavra. Para tanto, consultaremos um dicionário on-line, no caso, um dicionário da língua portuguesa. Encontramos, então, 15 significados, quais sejam:

substantivo feminino

Origem

⊙ ETIM lat.vulg. janŭella, dim.de janŭa,ae ‘entrada de um país’

1) abertura ou vão na parede externa de uma edificação ou no corpo de um veículo, que se destina a proporcionar iluminação e ventilação ao seu interior. 2) POR METONÍMIA esquadria de madeira, metal etc. que se coloca nessa abertura; caixilho ger. munido de vidro com que se faz a vedação móvel de um vão de janela. 3) INFORMAL qualquer buraco, abertura ou rasgão. “uma j. aberta nos fundilhos das calças” 4) num texto, espaço em branco onde falta uma palavra; lacuna. 5) ANATOMIA GERAL designação comum a duas aberturas na parede interna da caixa do tímpano. 6) ASTRONÁUTICA área situada nos limites da atmosfera sensível da Terra, por onde precisa passar a espaçonave, para que seja bem-sucedida a sua viagem de retorno. 7) CINEMA•FOTOGRAFIA numa câmara ou projetor, abertura retangular em uma placa opaca que delimita a área a ser fotografada ou projetada. 8) CINEMA•FOTOGRAFIA em certos instrumentos ópticos, abertura por onde são feitas as leituras em índices fixos. 9) FÍSICA NUCLEAR folha delgada de determinado material, ger. us. em detectores, que permite a passagem de um feixe de radiação ou de partículas. 10) ARTES GRÁFICAS buraco na fôrma tipográfica causado pela queda ou retirada de tipo(s). 11) ARTES GRÁFICAS espaço em que se abre um claro na folha impressa, por interposição acidental de um corpo estranho entre os tipos e o papel, ou deliberadamente, em formulários e documentos diversos, para ser preenchido pelo usuário com os dados que faltam ou para ali se encaixar um novo texto. 12) ARTES GRÁFICAS abertura praticada em folha de papel, cartão, envelope ou embalagem, coberta ou não por uma tira transparente, para deixar ver o que está por baixo. “envelope de j. 13) INFORMÁTICA trecho retangular de tela no qual um documento, arquivo, mensagem ou imagem é exibido total ou parcialmente por um programa ou sistema operacional. 14) RÁDIO•TV intervalo deixado nos programas para inserção de comerciais. 15) os olhos.[1]

Comparando todos os enunciados disponíveis no dicionário, inclusive sua origem latina, cujo sentido remete à “entrada em um país”[2], é possível reter o significado informal de janela que, por fim, remete a todos os outros. Fiquemos, então, com a seguinte definição: “qualquer buraco, abertura ou rasgão”. Deixemos em suspeição o enigmático décimo quinto sentido da palavra, “o olho”, que não deixa de conter uma certa noção de abertura.

Parece evidente que o sentido corrente da palavra janela não diz nada sobre a sua essência. O que conseguimos, por outro lado, foi uma simplificação do significado do conceito que ora investigamos, a partir de sinônimos aparentemente menos sofisticados, tais como buracos, entradas e saídas, rasgões, aberturas, etc. No entanto, uma simplificação já é alguma coisa. Por isso, questionaremos exatamente isto que nos restou: uma simplificação da janela, ou seja, qualquer abertura. Desse modo, pergunta-se: sendo o significado de janela substituído por sua simplificação, entendida como qualquer abertura, o que permite que a compreendamos como tal? Em outras palavras, qual a estrutura básica ou fundamental para que se possa reconhecer uma abertura enquanto abertura?

A resposta, como hipótese deste ensaio, pode ser dada sem muitos rodeios: a relação mínima constituinte de qualquer abertura é a de uma parte encoberta e outra descoberta; a relação entre dentro e fora.

Ora, se a estrutura de qualquer e toda janela – abertura – torna-se sensível pela relação percebida entre uma parte encoberta e outra descoberta, teríamos chegado à essência da janela? Isto é, é possível dizer que o que rege a abertura é o dentro-fora?

Não, não é possível afirmar nada ainda, pois a relação dentro-fora não responde à essência da janela, mas a uma complicação do conceito aqui estudado… Chegamos, talvez, a uma certa condição de reconhecimento humano ou social, empírico e lógico, da janela. Porém, nada possuímos da essência do objeto questionado.

Sendo assim, pergunta-se: é possível afirmar uma existência do fora consigo mesmo, sem que ele remeta a um dentro subentendido? Há alguma possibilidade de existir dentro e fora sem uma abertura prévia que os engendra? Não seria, então, inversamente, a própria abertura a fundação dessa relação – sendo a própria abertura a regência, ou essência, de qualquer relação entendida como dentro-fora?

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Para efeito de exposição, suponhamos um objeto que seja logicamente oposto à janela. Assim, considerando a janela, empiricamente, como a relação do dentro com o fora, poderíamos opô-la à relação do dentro com o dentro e do fora com o fora. Nessa medida, o objeto oposto à janela pode ser a parede, a casca, a crosta, a película, a membrana ou outras palavras sinônimas.

Estes objetos, que resultam no fechamento de qualquer abertura, impõem a sensibilidade do dentro com o dentro ou de um fora com o fora (a depender da perspectiva adotada). Contudo, por intuição, é permitido dizer que onde há paredes, películas, membranas, crostas, etc., houve previamente uma abertura originária, pois algo sempre deverá, necessariamente, fabricar paredes, instalar películas, sintetizar membranas, assentar crostas. Portanto, não há relação autônoma do fora com o fora ou do dentro com o dentro sem uma abertura prévia que tenha criado, por contraste, esta distinção. Os próprios conceito de fora e dentro dependem da abertura, não havendo, então, o dentro ou o fora em si mesmos. A relação autônoma desses conceitos consigo mesmos é mutuamente excludente, de tal modo que é seguro dizer que: qualquer coisa que seja apenas em si mesma não é capaz de produzir aberturas ou janelas.

Conclui-se que a condição de existência da janela é ter havido anteriormente algo que não esteja encerrado em si mesmo. Ou seja, para existir janela, enquanto abertura, é necessário uma relação entre, pelo menos, duas coisas. Qualquer ser que permaneça universalmente sozinho, autossuficiente e autoengendrado – isto é, qualquer coisa parecida com a “coisa em si” (se é que há a coisa em si) –, não produzirá janelas; não terá as condições prévias necessárias para a existência de qualquer abertura… Aquele que abre é sempre um outro – que abre ou fecha, que sai ou entra. A abertura é o modo pelo qual se deixa passar algo ou alguém.

E o que é esse algo, esse outro, que produz a abertura? A palavra que melhor se encaixa ao sentido que estamos empregado aqui é: intruso. Isto é, em português: “que ou o que é agente de, ou que pratica intrusão”. Nesse sentido, intrusão é apenas outro nome para abertura, portanto, outro nome possível para janela. Destaque-se, também, o sentido empregado pela geologia: a abertura produzida no interior da terra causada pelo movimento das lavas.

Eis uma resposta provisória possível para a essência da janela: o intruso. O intruso rege a janela. É a verdade da janela. Aceitemos esta resposta.

Contudo, o que se ganha com essa conclusão?

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Se nos despojarmos de um sentido antropológico para o conceito de intruso, como essência do conceito de janela, e de toda e qualquer remissão a figuras do humano ou da condição humana podemos afirmar o seguinte:

O intruso precede não só a história humana, mas a vida biológica; a órbita dos planetas, dos astros, galáxias… Há algo, cuja história se perde no infinito de qualquer retrospectiva, que existe com o atributo de penetrar e produzir aberturas, constituindo as relações dinâmicas do que se pode perceber como dentro ou fora, externo e interno, coberto e desencoberto…

O humano está, por outro lado, contido nesta essência. O intruso age no humano e também o rege, como rege a vida biológica que tem sua origem sempre deslocada para um outro território que não o que habita no presente.

As hipóteses científicas de que os seres vivos unicelulares, ancestrais de todas as formas contemporâneas de vida existentes, chegaram à Terra oriundos de outro território no espaço sideral, permitem a imagem do percurso deste ensaio: da janela também se chega ao caos.

A essência da janela é, por fim, a força intrusa. O intruso rege a janela, toda janela. Ele é a intromissão inoportuna que ultrapassa, inclusive, qualquer referência ao humano e à própria vida biológica. Nessa perspectiva, por outro lado, não deixa de ser possível, por meio do próprio humano, descobrir o intruso. Esteque está antes e estará depois da existência daquele, como fabricante de aberturas e fechamentos… É o intruso que age no humano antes de ser possível tomar o humano por intruso. É assim que o olho, como todas as outras janelas dos sentidos, é o rastro e a presença do intruso.


[1] Dicionário Google.

[2] O que é sugestivo em se tratando da língua falada pelos antigos romanos, os quais erigiram um dos maiores impérios do mundo a partir, obviamente, da invasão de outros países, portanto, “abrindo janelas”, como ato colonizador e de expansão imperial sobre territórios e povos não latinos.  

CAVALEIRO MONGE
Fernando Pessoa


Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por casas, por prados
Por quinta e por fonte
Caminhais aliados
Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por penhascos pretos
Atrás e defronte
Caminhais secretos
Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por plainos desertos
Sem ter horizontes
Caminhais libertos
Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por ínvios caminhos
Por rios sem ponte
Caminhos sozinhos
Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Sem ninguém que o conte
Caminhais em mim

Ass: Heideggerinho

Notícias do reino de Bāxī

Em um distante reino chamado Bāxī, governava um monarca que havia subido ao trono em razão de uma terrível guerra de sucessão entre sua família da linhagem Trèblés e a dinastia anterior dos Finart. Como resultado do conflito, o monarca Raij havia mandado jogar nas masmorras o antigo soberano de Bāxī cujo nome era Livás. 

A despeito do desconhecimento de Raij, parte dos membros da nobreza ainda apoiava o antigo rei. Em meio às secretas articulações políticas, os camponeses de Bāxī trabalhavam exaustivamente, quando sobreveio mais uma colheita ruim: agora que a produção escasseava, os donos das glebas ficavam com quase todo o trigo e nada restava para os famélicos agricultores.

Não demorou muito para a agitação começar… os camponeses iniciaram uma revolta comparável às jacqueries medievais ! Aos gritos de “exigimos pão e vinho”, o castelo de Raij foi invadido. Após muita batalha e algum sangue derramado, as tropas monárquicas conseguiram expulsar os camponeses da fortificação.

Apesar da apreensão dos bem alimentados nobres, aquela parcela cortesã fiel a Livás teve uma “brilhante ideia”… Esse bando enviou então uma mensagem a Raij: “Os camponeses exigem a liberação do bom rei Livás – caso ele seja libertado, toda a revolta acabará, pois seu descontentamento é indissociável de seu apoio ao nosso verdadeiro e natural monarca”. Alguns camponeses até preferiam o monarca da linhagem Finart, pois outrora houve momentos de abundância alimentar (fato esse que já entrara em declínio pouco antes da guerra de sucessão). Entretanto, sua demanda atual era clara: “exigimos pão e vinho”, sem mais. 

 Ao receber aquela missiva, Raij disse a seus ministros: “Estão vendo? Esses camponeses não passam de conspiradores, apoiadores de Livás”. Nesse ínterim, Raij buscou articular-se com as mais poderosas linhagens do reino (afinal, foi às custas dessas mesmas alianças militares que ganhara a guerra), anunciando a eles que os camponeses preparavam a libertação do monarca de outrora. O bando de Livás era composto por uma nobreza decadente, sem espírito guerreiro. Então, como de costume, aguardava passivamente a queda de Raij pelas mãos dos famélicos camponeses.

Mas, seu ardiloso plano saiu pela culatra e o rei lançou-se em uma poderosa ofensiva contra os camponeses. Raij preparara-se para a guerra, mas optou pela emboscada: centenas de soldados incendiaram as casas dos agricultores ao calar da noite. O monarca descobriu a identidade dos membros da nobreza opositora e fê-los jurar fidelidade a sua potestade (ordem imediatamente atendida pelos covardes).

Muitos dos camponeses fugiram para os bosques e com a ajuda dos povoados circundantes, vivem em engenhosas cabanas de madeira e palha – a comida é escassa e há algum vinho trazido por lenhadores (únicos a adentrar os recônditos dos bosques). Seu poder de resposta à adversidade é imenso e a qualquer momento poderão voltar a invadir alguma fortaleza onde a elite estoca seus preciosos cereais.

 Mas, e o rei Livás? Esse, continua detido nas masmorras.  Todos as noites sonha com o cetro de ouro cravejado com diamantes que um dia segurou firme em suas mãos. Em compensação, os camponeses das aldeias vizinhas ao castelo onde um dia governara raramente são motivo de seus pensamentos…

Ass: Nobreza sem rei

Carmen

Muito se comenta sobre a história de Carmen, e seu destino. A trajetória dessa mulher mundana, incontrolável, indecifrável e incrivelmente arrojada, foi contata nos mais distintos formatos. Primeiro como novela escrita por Prosper Mérrimé (1845), transformando-se em ópera pelas mãos de Bizet (1875) e convertendo-se em filme dirigido por Carlos Saura (1983).

No ano passado (2018) uma companhia de teatro de Florença apresentou – mais – uma releitura de Carmen, gerando polêmicas e debates acalorados nas redes sociais. Esta peça alterou o destino de Carmen, que mata seu amante Don José, em vez de ser assassinada por ele. Segundo as notícias publicadas nos jornais, essa mudança desagradou a muitos, que reclamaram da mudança na “obra original”. Segundo esse tipo de crítica, além do destino de Carmen, todo o sentido da obra havia se se perdido por meio desta “inversão de papéis”.

Frente a tais críticas, creio que duas ponderações são necessárias, a primeira envolve a trajetória de “Carmen” como obra de arte, uma vez que sua persistência no imaginário ocidental decorre, justamente, de suas releituras, rearticulações nos mais diversos formatos (novela, ópera, filme, peça de teatro). A obra “Carmen” gera interesse, afeta seu leitor que, por sua vez, sente vontade de “roubar” a força dessa história e, em seguida, partilhá-la, tornando-se seu/sua novo/a autor/a. A segunda ponderação envolve a personagem Carmen, que só existe e ganha força repetindo e se afastando das ‘Carmens” anteriores. Considero que essa dinâmica – de roubo e criação – nos expõe a potência de Carmen enquanto força ativa que desafia seu leitor a seguir em muitos caminhos.

Desejo me deter um pouco mais neste aspecto: a força ativa da personagem Carmen, que se expressa em diferentes momentos da obra e está presente, inclusive, no momento de sua morte. Creio que assassinato de Carmen, tomando como base a versão em formato de novela, não pode ser compreendida como o resultado das forças ativas de Don José, que submeteria Carmen ou a controlaria. Carmen é a força ativa dessa história do princípio ao fim, desde que ela se aproxima de Don José, ele só reage, toda a ação emana de Carmen.

Creio que nesse momento uma ponderação e nota de prudência se fazem necessárias. Quando digo que Carmen contém uma força ativa e que Don José somente reage, não quero afirmar a inocência de Don José pelo assassinato de Carmen, ou dizer que ela é culpada pelo seu destino. Carmen não pode ter culpa, ela está além de qualquer relação de castigo/culpa, ela é pura ação, afirmação e vontade. Ela é capaz de se responsabilizar por aquilo que faz.

Don José, pelo contrário, é pura reação, todas as ações dessa personagem são uma resposta à Carmen. Ele depende dela, reage a ela, não dá o valor daquilo que faz, toda valoração vem da nobreza de Carmen. Como Don José não é capaz de agir por si mesmo, toda má consciência se concentra nesse personagem. Ele reúne forças reativas e não as agencia, a não ser por meio de Carmen, tornando-se um indivíduo ressentido, que se volta à própria consciência, gerando a culpa.

Se alguém sente e espalha a culpa ao longo de toda novela é Don José, pois ele não age, ele sempre remete ao traço – amor por Carmen – transformando sua amante – única força ativa que ele conhece – em culpada pelo seu ocaso, culpada pela sua vida de ladrão, culpada por ele ter se “perdido do bom caminho”. Don José acredita tão piamente na dinâmica do castigo/culpa que mata Carmen e, em seguida, se entrega aos policiais, em uma espécie de ação redentora, que está muito aquém da potência ativa que Carmen emanou, inclusive no momento de seu assassinato.

Quando Carmen foi morta, ela acabara de recusar a oferta de “mudar de vida”, seguir para a América e formar uma família com Don José. Desde o primeiro momento ela afirmou sua vida mundana e sua indisposição em abandoná-la. Quando Don José lhe faz essa proposta e Carmen recusa, ela sabe qual será seu destino, sabe que o ressentimento do antigo amante não a deixará sair daquele descampado com vida.

Mesmo naquele momento, Carmen afirma sua vontade, não se retira do local estando ciente que Don José a matará. Interessante ressaltar que Carmen não sente culpa de seu envolvimento com Don José, ela maldiz o dia que o conheceu, ela enfeitiça aquele dia e enfrenta seu ocaso. Ele, por sua vez, tenta apelar à arte do convencimento, mas Carmen não se convence, ela – como de costume – age. Joga o anel que Don José lhe dera na grama, sabendo que essa ação gerará um rompante no antigo amante, o que de fato ocorre. Nesse momento Don José a mata.

Mesmo na hora de sua morte, Carmen age e Don José reage, Carmen enfrenta seu destino, lhe agencia, lhe maldiz. Carmen sempre direciona suas forças para fora, nada de culpa, só ação. Enquanto Don José ressente, reage, tenta convencer, mata enquanto reação. Até o último momento, é Carmen que dá o valor às ações. Enquanto a Don José só resta a retratação, a culpa, a má consciência, a extrema unção e, por fim, o cadafalso.

Capitu inspirada e, de modo algum, culpada.

O que pode uma força?

O que é uma força? Conceitos físicos, metafísicos e matemáticos buscaram definir a essência deste conceito, estabelecendo qual seria o seu “ser”. Neste texto, nosso intuito será mapear o que uma força “faz”: afinal, o que pode uma “força”? Adianto que, tal qual as mônadas de Gabriel Tarde, uma força estaria “inteiramente lá, onde age”.

Quando falo sobre forças me refiro à pluralidade de objetos, gestos e agentes que se expressam, surgem e deformam processos políticos, biológicos e cosmológicos em diferentes escalas e temporalidades. Uma força simplesmente não pode existir sem uma materialidade, pois ela não é “pura ideia”. Tampouco compreendo as forças como algo “contextual”, “estrutural”, “dialético” restringindo-as a um curto espaço de tempo, ou mesmo a lógica dual do negativo. De antemão afasto as forças e sua genealogia de qualquer parentesco com o “espírito do tempo”, a assombração mais chata e metódica que a bruxaria pouco competente do homem ocidental conseguiu produzir.

As forças não se qualificam pelo negativo, desta forma, não nos bastará dizer “as forças não são dialéticas, portanto são boas”. É difícil caracterizar as forças, uma vez que seu elemento essencial é agir, diferir, apossar-se de alguém ou algo, é ser moldada e, por vezes, trair!

Quando digo que as forças traem não quero dizer que elas são antiéticas, elas estão “além da ética”, serpenteando entre seus agentes, sendo refeitas e rearranjadas. A força só trai segundo nosso ponto de vista humano-ocidental. A força para si é só dispersão, ação e afetação, tal como uma fumaça que pode ter sido resultado de prazer para o fumante no ponto de ônibus, a emulação da morte para o antitabagista, uma nuvem de tempestade para a abelha que se aproxima ou absolutamente nada para formiga que está no solo.

A afetação envolve relação e deslocamento, tal como em momentos marcantes da história ocidental: a Revolução Francesa. Em meio a esse processo revolucionário, a “sólida” autoridade monárquica tornou-se algo questionável. Naquele momento – na França – o direito divino dos reis navegava ao sabor das forças ativadas pelos indivíduos, que questionavam a existência de um governante escolhido por Deus e, ao mesmo tempo, o mataram entoando em coro “o rei está morto, viva o rei!”.

Antes de nos voltarmos à resposta fácil de que o “o ser humano não tem sentido, é louco, e que bom mesmo são os cachorrinhos e gatinhos”, creio que seja mais produtivo, e desafiador, pensar a pluralidade de forças em dispersão, em ativação e em disputa pelos agentes do passado e do presente. O desafio envolve afastar daquilo que nos faz parar de pensar, tal como as expressões “é estranho”, “é louco”, “é contraditório”. Tal postura nos impede se seguir as forças e sua reinvenção, nos impede de compreender como um indivíduo pode ativar forças, dar-lhes forma e viabilidade, usar-se delas, impô-las aos demais e, ao mesmo, ser morto por elas (lembre-se, as forças traem!).

Alguns indivíduos efetivamente foram mortos pelas forças de ativaram e isso não tem necessariamente a ver com a incapacidade de controla-las ou com um “desvio de sua rota inicial”. Nesse sentido, o caso Robespierre salta aos olhos: o principal líder revolucionário jacobino sendo morto na guilhotina, o instrumento da “justiça revolucionária”, na qual os contrarrevolucionários seriam varridos da terra! Entretanto, como sabemos que é hora de Robespierre morrer pela guilhotina? Em verdade, não sabemos, o reordenamento das forças é tão subido e devastador quanto um “jogo de Go”, de repente seus manejadores estão de joelhos no cadafalso, sendo julgados pela mesma retórica e pelas mesmas acusações impingidas aos demais. As forças simplesmente se remanejaram, se redefiniram, de modo que aqueles que acusavam a “hegemonia” dos comunistas na política brasileira, são os novos comunistas.

Mônada rebelde.

Tarsila do Amaral: como pode uma pintura pensar ?

Sou profundamente brasileira e vou estudar o gosto e a arte dos nossos caipiras. Espero, no interior, aprender com os que ainda não foram corrompidos pelas academias”.  Tarsila do Amaral

É com essa afirmação de Tarsila (1886-1973), pronunciada após sua temporada de estudos em Paris (1923) que se inicia o folder da exposição Tarsila Popular em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (MASP) com curadoria de Fernando Oliva e Adriano Pedrosa. A exposição conta com pinturas da artista desde a década de 1920 até meados de 1950. As obras que destacamos são os trabalhos realizados no segundo decênio do século XX, como: A Negra (1923); Morro da Favela (1924); A Cuca (1924); Abaporu (1928) e Antropofagia (1929).  

Nessas telas, podemos observar a grande potência que a artista desenvolvia em meio ao modernismo brasileiro que atinge um de seus clímax com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade (1929), sendo uma de suas inspirações a tela Apaboru [homem que come gente]. Nossa intenção aqui, entretanto, não é debater o modernismo brasileiro enquanto movimento (caminho que poderia ser interessante, mas não foi o escolhido para esse texto).

Gostaríamos de destacar a parte final do enunciado de Tarsila: “Espero, no interior, aprender com os que ainda não foram corrompidos pelas academias”. Essa fala se relaciona diretamente com a pintura da artista na década de 1920: em um salto antropofágico, construiu um modo de pintar singular, que foge aos cânones não apenas da pintura realista, mas também, da “vanguarda” pictórica modernista. As telas citadas no primeiro parágrafo são pura criação: não estão presas nem ao cubismo de Léger (um de seus professores em Paris), nem à pretensão de representação de um arquétipo caipira à Almeida Júnior. A empreitada bem-sucedida de Tarsila não passa por representar o Brasil, mas encontrar nos “caipiras” sua inspiração para criar fissuras na pintura acadêmica (seja ela realista, seja ela vanguardista).  

 Tarsila engendra cores incomuns na arte europeia: azuis, rosas, roxos, amarelos se misturam de um modo não encontrado nem mesmo em Matisse. As verdes palmeiras surgem aos poucos em meio à aurora de um céu azul-claro, criando um efeito visual impressionante. Não opta nem pela linha reta, nem pela curva:  há um descompromisso total com a geometria euclidiana!  

O impulso antiacadêmico de Tarsila é um convite a um modo de pensamento: pensar por meio da pintura. Criar de maneira antiacadêmica não é estar oculto, como um eremita cujo gênio está cuidadosamente resguardado ao ambiente. Nem mesmo quer dizer se ausentar das instituições (universidades, museus, aulas, cursos, escolas) – é possível estar nelas e criar brechas e furos contrários ao modo de atuar de seus próprios “mestres” (Tarsila excede cubismo de Léger, por exemplo) – fazendo emergir uma multiplicidade positiva nesses espaços. Como diz Deleuze em Diferença e Repetição (Graal, 1988): “relampejar em fundo negro”.  

Não se adequar aos cânones e a uma deontologia não tem a ver com a negação dos cânones (sim, realmente não diz respeito a uma negação), pois não se trata de criar algo novo a partir daquilo que falta no outro, mas de inventar a si mesmo afirmando a existência própria do outro. Cria-se uma comunicação intempestiva por meio de uma linha não prevista, engendrando uma nova perspectiva que não necessita representar (nem negar).

Enfim, a exposição Tarsila Popular é altamente recomendável àqueles que desejam presenciar a pintura como modo de pensamento.

Ass: Mona Lisa apócrifa