Parte I – consciência de ruptura
Um dos mais brilhantes historiadores do mundo foi Fernand Braudel. Ele fez parte de uma segunda geração de historiadores franceses que, desde os anos 1920, com Lucien Febvre e Marc Bloch, tinham como objetivo encontrar critérios científicos para a história social e econômica. Colocando, porém, o positivismo do século XIX em questão. Estamos falando da “escola dos annales”, como são conhecidos até hoje.
Braudel, por sua vez, foi responsável por uma categoria de análise histórica das mais importantes: a longa duração. Chamo de categoria de análise porque a “longa duração” não é um conceito, mas uma delimitação do objeto de estudo. Por exemplo, a formação de um hábito alimentar baseado no pão de farinha de trigo na região do mar mediterrâneo. Tal processo de formação só pode ser entendido recortando-o numa temporalidade milenar, sem personagens “principais” e batalhas espetaculares. Daí a longa duração.
Caminhando com Braudel, este sempre desconfiou dos “acontecimentos” de ruptura, como as revoluções modernas – a francesa como símbolo paradigmático – e, portanto, desconfiava da história política, das genealogias nobres, das grandes guerras e impérios. Braudel propôs, então, analisar uma história anônima, lenta, demográfica, climática, geológica, material.
A longa duração, portanto, é o tempo das rotas comerciais; o tempo do desenvolvimento de técnicas agrícolas; de domesticação de espécies animais e vegetais. Estamos falando do tempo de formação de sistemas que relacionam assentamentos populacionais, zonas de escoamento de mercadorias por meio de aberturas de estradas, rios e mares. Estamos falando de formas comunitárias de vida camponesa ou não, que conquistaram um equilíbrio produtivo, demográfico e cultural por milênios… Enfim, temporalidades que só foram rompidas muito tardiamente na história humana, por fatores externos ou acidentes endógenos, ou ainda resistem e perduram: como as sociedades indígenas isoladas.
Portanto, a longa duração trata dessas atividades humanas seculares, milenares, que não são passíveis de serem avaliadas por meio de nomes próprios e grandes acontecimentos. Pelo contrário, estamos falando da estrutura do próprio cotidiano. Da vida, pode-se dizer, “ordinária”.
A historiografia, desde meados do século passado, transitou para o que se descreveu acima. Com notáveis desenvolvimentos, numa explosão de objetos de pesquisa, sofisticação da descrição e reconstituição do passado para entender onde o presente se estriba.
Dito isso, pergunto: da perspectiva da longa duração, como entender o acontecimento?
Bem, essa pergunta já não é mais novidade, faz tempo tenta -se conciliar a longa duração ao acontecimento. Porém retomo a pergunta, adiantando que me parece que essa seja uma falsa polêmica, como tantas existentes.
Pensando desse modo, um acontecimento pode ser medido. Ele tem um alcance, uma profundidade, isto é, tem dimensões e direções que podem ser medidas, a partir das fontes e dados dos quais dispomos. Assim, poder-se-ia chamar de acontecimento o instante em que as estruturas que demoraram séculos e milênios para se consolidarem, em diferentes escalas de duração, são atravessadas por algo que as fazem participar de um mesmo momento vivido. Isto seria a captação de uma interligação global do momento vivido.
Ora, a meta de uma pesquisa histórica que avalia um acontecimento, entendido do modo descrito acima, só pode ser realizada satisfatoriamente se for inter e transdisciplinar: junto com a geografia, biologia, estatística, economia, antropologia, sociologia etc… Isso também os autores da escola dos annales já falavam desde os anos 1920.
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Voltemos, agora, para o título desse texto, a “consciência de ruptura”. Nestes dias de medidas globais para conter o COVID-19, a imprensa, as redes sociais e intelectuais, se dispõem a vaticinar que vivemos um momento de ruptura. Portanto, um acontecimento de dimensões globais, com o potencial de transformar radicalmente a forma como vivemos. Projetam que após a pandemia, o mundo já não será mais o mesmo.
Ora, a isso que foi dito acima atribuo a noção de consciência de ruptura: um conjunto de enunciados que vaticinam uma transformação prestes a chegar.
Desse modo, adotando o critério de prudência que nos ensina a “longa duração”, eu sugiro suspeitar da noção de acontecimento tal como ela vem sendo expressa. Porém, acatá-la. Acatar o que a noção de ruptura indica.
Que o vírus global já causou um imenso estrago, disso não se duvida, e que esses estragos estão longe do seu apaziguamento, também disso não se duvida.
Quando se fala em estrago, estamos falando de mortes de pessoas e um brutal desarranjo econômico, que deixará suas marcas por bastante tempo. A Europa projeta quedas de PIB que variam de 0,5% a 10%. Nas Américas não será diferente. Assim como na África e Ásia. Sem falar nas áreas em que as populações sofrem sérias privações, tanto localmente como globalmente.
Contudo, qual será a profundidade da ruptura? Quando se diz “não viveremos mais como antes” o que se quer dizer?
Quando falamos de “formas de vida” estamos falando do modo de morar, se locomover, consumir, produzir, criar laços afetivos, etc. O acontecimento que ora vivemos tem o potencial de transformar essas estruturas de forma definitiva? Que ela já transformou esses hábitos durante a quarentena, não há dúvida. Mas o que pode sair daí?
Por ora, cabe dizer que governos e governantes já foram fortemente atingidos, isso é claro. Está no horizonte da curta profundidade de consequências. Porém, alguns intelectuais se dispõem a projetar quadros mais ousados em profundidade: como adoção de sistemas de controle social (biopoliticos) mais sofisticados e invasivos; quadros otimistas como a construção de formas de vida mais solidárias (porém o que isso pode querer dizer?); além de quadros desoladores, como fome, caos social, e instabilidade duradoura.
O que se pode dizer é que a dimensão do acontecimento que estamos vivendo é global e já é irreversível, pode ser mitigado, mas não dá mais para voltar atrás. O que ainda fica sem resposta é a profundidade das consequências desse acontecimento.
Nesse sentido, é que se pode situar a falsa contradição entre “salvar vidas e salvar empregos”, por exemplo. Essa aporia se constitui porque nos atemos a uma ilusão de “retorno” à normalidade cotidiana. Assim, cria-se a falsa ideia de que é possível escolher entre uma coisa e outra para voltarmos o mais rápido possível ao que éramos – ainda que isso agrave os custos humanos.
Porém, não há escolha a se fazer aí. E para seguir adiante é necessário aceitar que não há mais “normalidade”. E é aí que situamos o “acontecimento”.
Assumir a ausência de normalidade não é ser catastrofista. É o contrário. É assumir que deveremos pensar 1) como conter os estragos nas vidas humanas e 2) como situar a vida cotidiana nessa situação.
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Como conclusão, é possível dizer que a consciência de ruptura não é uma novidade destes dias que vivemos, ela se manifestou em muitos momentos da história, em que de fato rupturas ocorreram. O que o fenômeno atual tem em comum, porém, é que a expressão da noção de que se vive uma ruptura é incapaz de acertar a respeito do que haverá depois e qual o caráter próprio da transformação ocorrida. De fato, não dá para saber.
O que dá para saber é que a conjuntura global mudou, já mudou. Já não existe uma “normalidade”. Todo o horizonte econômico, parte significativa das estruturas políticas e práticas de estado, etc., já estão questionadas. A pergunta que teremos de responder no futuro próximo é: afinal, o que fazer?
Parte II – Não se afetar não é uma opção
Iniciemos a parte II dessa discussão com um questionamento espinozista: a afecção provocada pela intrusão de elementos, como esse novo vírus, não pode ser ignorada. O velho dualismo platônico entre essência e aparência, e todas as implicações reativas que ele traz consigo já não nos servem para nada.
De fato, o problema da longa duração apontado por Braudel incide como uma questão relevante: há algo de novo sob o sol? Não é de hoje que sentimos eventos intrusivos em nossas vidas: barragens se rompem; o clima aquece; pandemias existem… Seriam essas produções materiais do capitalismo?
Dobrando a perspectiva braudeliana, nos perguntamos: qual a produção de uma perspectiva baseada no pensamento da ruptura por meio do evento? Como nos lembra Koselleck, o século XVIII inaugurou uma nova relação com o conceito de história enquanto possibilidade de quebra temporal entre passado, presente e futuro: o que ele chamou de moderno conceito de história. A Revolução Francesa produziu-se enquanto um processo que potencializou o pensamento da ruptura: “a França já não é a mesma; nada tem a ver com o Antigo Regime; fundamos uma nova era”. Esse procedimento, evidentemente, possui implicações: Luís XVI perdeu sua cabeça. De qualquer modo, no campo dos eventos políticos, a história nos demonstrou que nada é para sempre. Atrás de um Roberspierre há um Luís XVIII; no encalço de Napoleão vem um Napoleão III.
Desde esse ponto de vista, Braudel seria um antimoderno, na medida em que nos incita a pensar a história desde uma temporalidade não ruptural, ou seja, que desconfie da velocidade dos acontecimentos políticos imediatos. De qualquer maneira, esse vírus nos afeta, nos faz sentir de outro modo: até Braudel estaria trancado em casa. A ansiedade envolve a situação pandêmica: o que será de nós amanhã? Essa questão não pode ser respondida, por mais projeções que se façam. A prudência colocada pelo pensamento braudeliano de não nos atermos ao momento presente, possui uma potência interessante, na medida em que chama a uma análise de relações de força mais atenta. O vírus trouxe à superfície elementos que já estavam contidos no mar do cotidiano: relação entre capital e Estado; entre população e saúde; entre “meio ambiente” e vida. Nesse sentido, talvez possamos chamar esse intruso de catalisador: aumentando a velocidade das reações, as faz mais visíveis.
Pensando do ponto de vista dos afetos que nos atravessam, o intruso faz pensar: nada é óbvio. Talvez devêssemos compreender que “o eu é um outro” como dizia Rimbaud, ou seja, não há problemas intimamente pessoais. Nossa vida é coletiva, pois as relações de força que nos perpassam são coletivas e dizem respeito a universos muito mais vastos do que um sujeito de terno sentado em um escritório, esperando o final do expediente para chegar em casa e continuar a redigir seus relatórios. O sol que nasce nos diz: ainda há tempo, mas o tempo já não é aquele.
Parte III – os não-humanos
Os acontecimentos das últimas semanas, evidenciam a ação de um novo agente não-humano: o Coronavírus. Em um primeiro momento, lendas urbanas sobre sua origem foram difundidas nas redes sociais, grande parte delas regadas a racismo e preconceitos contra povos asiáticos, que inclusive se mobilizaram virtualmente difundindo a famosa frase: “eu não sou um vírus”. Ressalto o quanto essas lendas e especulações sobre a origem do vírus são inócuas, tanto para enfrentamento do atual do quadro social e sanitário, quanto para a produção de respostas. Entretanto, ressalto que a inutilidade deste tipo de enunciação não envolve somente o fato de que ela se embasa em “especulações” (e não recorre aos “fatos duros”), mas também por seu apelo a uma “causa original”.
Especular ou dar atenção à origem de um agente não-humano, que se espalha em escala exponencial, me faz lembrar aquela velha fábula do filme de ficção científica, na qual o cientista-homem-protagonista descobriria a “causa dos males” e, consequentemente, se tornaria capaz de reverter a situação. Seguindo esse mesmo eixo narrativo, o descobrimento da “causa” seria seguido da “solução nítida e racional” que reestabeleceria a normalidade, a concórdia e a vida tal qual era sempre havia sido. Os próprios agentes sanitários envolvidos no combate à doença têm plena consciência da inutilidade de se pensar a origem de um vírus com alta capacidade de expansão, de modo que as ações de prevenção e estímulo ao isolamento buscam “trabalhar pelo meio”, evitando o contágio e medindo forças com um agente em plena atividade, cujas “regras do jogo” ainda nos são obscuras.
É nesse sentido, que a intrusão do Coronavírus me parece um acontecimento, algo que prende nossa atenção ao “meio”, ao tempo presente, às ações “aqui e agora”. Retornando à fábula da ficção científica, contrariamente às nossas expectativas cinematográficas, sabemos que o “mundo após o Coronavírus” não será o mesmo mundo. Além de não existir aquele “fio vermelho que uma vez cortado desativa a bomba”, também não se conhece nenhuma solução direta, nítida e rápida, tampouco se sabe sobre o dia de amanhã. Tais incertezas se estendem às consequências que esse evento nos deixará, colocando com mais contundência alguns questionamentos (que não nos são completamente desconhecidos): nosso atual modo de vida é realmente sustentável? Para quem produzimos? Por onde andavam nossas ações e pensamentos mais queridos? Os parâmetros econômicos de perpétuo “desenvolvimento linear” são desejáveis? Ou mesmo inevitáveis?
Tais questões, que mostram sua atualidade, se inserem em um debate mais longo, que remonta aos anos 1980 e ganhou especial vigor após a crise de 2008. Destaco rapidamente vozes como Isabelle Stengers, Bruno Latour e Ailton Krenak, cada uma delas elaborando o problema ao seu modo, apontando a falência do atual modo de vida, que se direciona ao consumo intermitente, à noção de “necessidade de progresso”, bem como, ao não comprometimento do homem com a terra em que habita. A separação moderna entre natureza e cultura foi bastante conveniente na elaboração dos parâmetros seguidos pelo sujeito moderno, que ao se considerar algo separado – e inclusive superior – aos não-humanos do “mundo natural”, considerou-se “intocável” e irresponsável frente aos resultados de seus atos.
Segundo as críticas dos(as) autores(as) acima, o modo moderno de se relacionar com o mundo, embora nos seja apresentado como “universal” e “inescapável”, é bastante restrito e restritivo. Situação que se torna latente com a emergência do Coronavírus: um novo agente não humano em plena expansão. Condicionado a pensar com base em fins, e produzir valor sobre finalidades (pautadas em ações progressivas), o pensamento moderno mostra sua incapacidade de “pensar/agir pelo meio”, ou seja, posicionar-se estrategicamente frente a um mundo povoado por agentes que não “se adestram” à dominação humana. A ação do Coronavírus coloca a necessidade de se posicionar em um mundo cujos fins não norteiam a criação de projetos de ação fechados, faz-se preciso agir “pelo meio” para, assim, criar um fim. Agir “pelo meio” envolve abrir-se às misturas, estar disposto a reposicionar-se, negociar, pensar novos modos vida e, talvez, uma nova concepção sobre o que significa desenvolver-se.
A crítica elaborada acima, pode soar egoísta, inocente ou talvez até irresponsável. Entretanto, os pronunciamentos das últimas semanas nos indicam o quanto o pensamento/ação “voltado a fins” (lucro, ordem, economia, “bem maior”) é o mais irresponsável de todos, pois se exime de qualquer postura ética, evitando a seguinte pergunta: “quantos precisarão morrer para que os fins sejam alcançados?”. Pensar/agir pelo meio significa enfrentar a controvérsia enquanto tal, mover-se tão rápido quanto o Coronavírus, lhe fazer emboscadas, proteger os entes queridos, atuando e produzindo a chegada do futuro, que assim como o fim desta pandemia, resultará de ações e decisões tomadas “pelo meio”.
Por Comitê sem nome.